BEJA - DANDO VOZ AOS POETAS
Segunda-feira, Junho 04, 2012
Quinta-feira, Maio 31, 2012
SEI QUE O SILÊNCIO MORDE A MINHA BOCA
Sei que o silêncio morde a minha boca.
Hoje, na melancolia de um fim de tarde,
Chamei por uma estrela solitária.
Essa que morreu antes de chamar pelo teu nome.
Sei hoje que a tua ausência
É a voz do silêncio do meu corpo,
O tempo que faltou ao nosso encontro,
Se pudesse ser outro que não eu
Talvez me pudesse despir de antigas mortes
E olhar-te na madrugada súbita dos teus olhos
E dizer-te que amanhã
É sempre o dia em que te procuro.
Amanhã, será sempre o dia em que te digo
"Amo-te" .
PAULO EDUARDO CAMPOS
In "Na serenidade dos rios que enlouquecem"
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Poesia Paulo Eduardo Campos
Domingo, Maio 27, 2012
SONHOS
Sonho-te
que sonhando-me
sonhas-me,
em teus braços,
mil beijos
sussurrados
Sonho-te
e sonhando-me
amo-te
no rasgar da pele
buscando
carícias longas
entregando-me
Sonho-te
no abraço incontido
corpo entregue
vencido
em noites de vendaval
E esse perfume errante
--- seiva quente ---
dá vida dá alento
mesmo que não passando
de ilusão,
que se desfaz em nada,
tal qual nuvem
em tarde de verão.
Sonho-te
que sonhando-me
sonhas-me...
amando-te...
OTÍLIA MARTEL
Foto de Julia Nikonchuk
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Poesia Otília Martel
Quarta-feira, Maio 23, 2012
CANTIGA
Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.
Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.
Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.
À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida.
Como um navio sobre o mar.
CABRAL DO NASCIMENTO
1897/1978
Foto de Svetlana Melik-Nubarova
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Poesia Cabral do Nascimento
Sábado, Maio 19, 2012
BALADA DO GELO
há nestas noites perdidas
a dor gelada do teu corpo ausente
do abraço das tuas pernas fendidas
desabrochando num sorriso quente.
é a saudade dolorida
das tuas mãos cruéis
que me rasgam a pele ferida,
desenhando no meu corpo
o mapa do teu desejo,
a mordedura da tua boca salgada
percorrendo-me insaciada
na tortura de um longo beijo.
sempre nestas noites perdidas,
a dor gelada do teu corpo ausente,
da prisão das tuas pernas rendidas
desabrochando num gemido quente.
e quando o sol começa a despontar
e eu consigo adormecer,
juro-te, minha querida,
que nunca mais quero acordar.
ANTÓNIO MAGA
Foto de Alexander Eliseev
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Poesia António Maga
Quarta-feira, Maio 16, 2012
MARIA
Todo o passado, para mim, é morto,
e, no futuro, há só esperança infinda
que eu sinto n' alma quando lembro, absorto,
essa mulher divinamente linda.
Queria viver, nas sombras de algum horto,
longe do mundo, o sonho que não finda !
Viver com ela, viver nela, e absorto,
morrer com ela, enamorado ainda !
Que a vida, sem amor, é desventura ;
e, se a não vejo, eu vejo fatalmente,
em toda a parte, a dor que me tortura.
Ah, mas se a vida é o seu amor somente,
porque sinto, meu deus, esta amargura
de a não poder amar eternamente ?
GUILHERME DE FARIA
1907/1929
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Poesia Guilherme de Faria
Domingo, Maio 13, 2012
Quinta-feira, Maio 10, 2012
MULATA
corpo de mulata
corpo de batuques e luar
corpo de serpente
a enroscar-se na árvore
corpo de mel e malícia
onde mãos buscam frementes
poemas de luz e cor
onde beijos estremece
entre seios ponteagudos
onde o sexo é uma flor
a oferecer as sementes
aos quatro cantos do mundo
corpo esguio e feiticeiro
por onde passa o amor
e fica ainda mais belo.
MARIA OLINDA BEJA
Maria Olinda Beja Martins Assunção, nasceu em Guadalupe em 1946 (São Tomé e Príncipe), sendo porém de nacionalidade portuguesa. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Português/Francês) pela Universidade do Porto, Olinda Beja é docente do Ensino Secundário desde 1976. Ensina também Língua e Cultura Portuguesa na Suíça, é assessora cultural da Embaixada de São Tomé e Príncipe e dinamizadora cultural. Publicou os livros de poemas 'Bô Tendê?', 'Leve, Leve', 'No País do Tchiloli', 'Quebra-Mar' e 'Água Crioula', os romances 'A Pedra de Villa Nova', '!5 Dias de Regresso' e 'A Ilha de Izunari' e ainda livros de contos. (nescritas.com)
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Poesia Maria Olinda Beja
Quinta-feira, Maio 03, 2012
NINGUÉM
Embriaguei-me num doido desejo
e adoeci de saudade.
Caí no vago ... no indeciso
não me encontro, não me vejo -
perscruto a imensidade
E fico a tactear na escuridão
ninguém. ninguém
nem eu, tão pouco !
Encontro apenas
o tumultuar dum coração
aprisionado dentro do meu peito
aos saltos como um louco
JUDITH TEIXEIRA
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Poesia Judith Teixeira
Domingo, Abril 22, 2012
CANÇÃO DO AMOR DISTANTE
Ela não foi, dentre todas, a mais bela,
mas me deu o amor mais fundo e longo.
Outras me amaram mais; e, no entanto,
a nenhuma desejei como a ela.
Talvez porque a amei de longe,
como a uma estrela desde minha janela…
e a estrela que brilha mais distante
nos parece que tem mais reflexos.
Tive seu amor como uma coisa distante
como uma praia cada vez mais solitária,
que unicamente guarda da onda
uma umidade de sal sobre a areia.
Ela esteve em meus braços sem ser minha,
como a água no cântaro sedento,
como um perfume que se foi no vento
e que volta no vento todavia.
Me penetrou sua sede insatisfeita
como um arado sobre a planície,
abrindo em seu fugaz desprendimento
a esperança feliz da colheita.
Ela foi o próximo no longínquo,
mas preenchia todo o vazio,
como o vento nas velas do navio,
como a luz no espelho quebrado.
Por isso ainda penso na mulher, aquela,
a que me deu o amor mais fundo e longo…
Nunca foi minha. Não era a mais bela.
Outras me amaram mais… E, no entanto,
a nenhuma desejei como a ela.
JOSÉ ANGEL BUESA
Foto de Juan Velasco
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Poesia José Angel Buesa
Quarta-feira, Abril 18, 2012
ACORDANDO
Em sonho, às vezes, se o sonhar quebranta
Este meu vão sofrer; esta agonia,
Como sobe cantando a cotovia,
Para o céu a minh'alma sobe e canta.
Canta a luz, a alvorada, a estrela santa,
Que ao mundo traz piedosa mais um dia...
Canta o enlevo das cousas, a alegria
Que as penetra de amor e as alevanta...
Mas, de repente, um vento humido e frio
Sopra sobre o meu sonho: um calafrio
Me acorda. — A noite é negra e muda: a dor
Cá vela, como d'antes, ao meu lado...
Os meus cantos de luz, anjo adorado,
São sonho só, e sonho o meu amor!
ANTERO DE QUENTAL
Antero Tarquínio de Quental (Ponta Delgada, 18 de abril de 1842 — Ponta Delgada, 11 de setembro de 1891) foi um escritor e poeta Português, nascido na Ilha de São Miguel, Açores .
A poesia de Antero de Quental apresenta três faces distintas:
-A das experiências juvenis, em que coexistem diversas tendências;
-A da poesia militante, empenhada em agir como “voz da revolução”;
-E a da poesia de tom metafísico, voltada para a expressão da angustia de quem busca um sentido para a existência. A oscilação entre uma poesia de combate, dedicada ao elogio da acção e da capacidade humana, e uma poesia intimista, direcionada para a análise de uma individualidade angustiada, parece ter sido constante na obra madura de Antero, abandonando a posição que costumava enxergar uma sequência cronológica de três fases.
Antero atinge um maior grau de elaboração em seus sonetos, considerados por muitos críticos uns dos melhores da língua e comparados aos de Camões e aos de Bocage. Há, na verdade, alguns pontos de contato estilísticos e temáticos entre esses três poetas: os sonetos de Antero têm inegável sabor clássico, quer na adjetivação e na musicalidade equilibrada, quer na análise de questões universais que afligem o homem. (Wikipédia)
Foto de Dimitar Variysky
Domingo, Abril 15, 2012
O SEU NOME É MUITO PRÓPRIO DELA
O seu nome é GRAcioso e muito próprio dela:
Respira um vago tom de música inocente;
E lembra a placidez de um lago transparente;
Recorda a emanação tranquila duma estrela.
Lembra um título bom, que logo nos revela
A ideia do poema. E todo o mundo sente
Não sei que afinidade entre o seu ar dolente,
a sua morbidezza, e o próprio nome dela.
E chego acreditar - ingenuamente o digo -
Que havia um nome em branco, e Deus pensa consigo
Em traduzi-lo enfim numa expressão qualquer:
De forma que a mulher suave e GRAciosa
Faz parte deste nome um tanto cor-de-rosa,
E este nome gentil faz parte da mulher.
GUILHERME DE AZEVEDO
Pintura de Iman Maleki
Guilherme Avelino Chave de Azevedo (1839-1882) nasceu em Santarém e faleceu em Paris. Estudou Humanidades no liceu de Santarém, tendo fundado e dirigido o jornal O Alfageme (1871). Fixa-se em Lisboa, onde se junta à Geração de 70, participando nas Conferências do Casino. Colaborou na Lanterna Mágica e no Álbum das Glórias, este último ilustrado com caricaturas de Rafael Bordalo Pinheiro. Sendo correspondente jornalístico do Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, parte em 1880 para Paris, onde viria a falecer. As influências poéticas sofridas vão de Lamartine a Victor Hugo, mostrando a sua poesia algumas semelhanças com a de Cesário Verde. Obras poéticas: Aparições (1867), Radiações da Noite (1871) e A Alma Nova (1874). Em colaboração com Guerra Junqueiro, escreveu Viagem à Roda da Parvónia.
Origem: Projecto Vercial
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Poesia Guilherme de Azevedo
Quinta-feira, Abril 12, 2012
A D E U S
Mon coeur, encore plein d'elle, errait sur son visage
Et ne Ia trouvait plus.
MUSSET.
Porém de súbito acordou do ergástulo
O precito, que ali jazia há pouco...
E o pensamento habituado às trevas
Atirado na luz... — pássaro louco!
Vi de repente o passado
Erguer-se em face de mim...
A rir... a rir, como espectro,
De uma ironia sem fim.
A orquestra, as luzes, o teatro, as flores
Tu no meio da festa que fulgura
Tu! sempre a mesma! a mesma! Tu! meu Deus!
Não morri neste instante de loucura ...
Quebra-te pena maldita
Que não podes escrever
A horror de angústias e mágoas
Que então me viste sofrer.
A mesma fronte que amei outrora!
O mesmo riso que me vira um dia!
O mesmo olhar que me perdera a vida!
A mesma, a mesma, por quem eu morria!
Que saudades que eu tenho do passado,
Da nossa mocidade ardente e amante!
Meu Deus! Eu dera o resto de existência
Por um momento assim... por um instante.
Mas não! entre nós o abismo
Se estende negro e fatal...
— Jamais! — é palavra escrita
No céu, na terra, no val.
Eu — já não tenho mais vida!
Tu — já não tens mais amor!
Tu — só vives para os risos.
Eu — só vivo para a dor.
Tu vais em busca da aurora!
Eu em busca do poente!
Queres o leito brilhante!
Eu peço a cova silente!
Não te iludas! O passado
P'ra sempre quebrado está!
Desce a corrente do rio...
E deixa-o sepulto lá!
Viste-me... E creste um momento
Qu'inda me tinhas amor!.
Pobre amiga! Era lembrança,
Era saudade... era dor!
Obrigado! Mas na terra
Tudo entre nós se acabou!
Adeus! ... É o adeus extremo...
A hora extrema soou.
Quis te odiar, não pude. — Quis na terra
Encontrar outro amor. — Foi-me impossível.
Então bendisse a Deus que no meu peito
Pôs o germe cruel de um mal terrível.
Sinto que vou morrer! Posso, portanto,
A verdade dizer-te santa e nua,
Não quero mais teu amor! Porém minh'alma
Aqui, além, mais longe, é sempre tua.
CASTRO ALVES
Foto de Vlad Belin
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Poesia Castro Alves
Terça-feira, Abril 03, 2012
VIVO NA ESPERANÇA DE UM GESTO
Vivo na esperança de um gesto
Que hás-de fazer.
Gesto, claro, é maneira de dizer,
Pois o que importa é o resto
Que esse gesto tem de ter.
Tem que ter sinceridade
Sem parecer premeditado;
E tem que ser convincente,
Mas de maneira diferente
Do discurso preparado.
Sem me alargar, não resisto
À tentação de dizer
Que o gesto não é só isto...
Quando tu, em confusão,
Sabendo que estou à espera,
Me mostras que só hesitas
Por não saber começar,
Que tentações de falar!
Porque enfim, como adivinhas,
Esse gesto eu sei qual é,
Mas se o disser, já não é...
REINALDO FERREIRA
Foto de Vyacheslav Sokhin
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Poesia Reinaldo Ferreira
Sexta-feira, Março 30, 2012
ESTRELA DA TARDE
Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram
Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!
ARY DOS SANTOS
José Carlos Ary dos Santos (Lisboa, 7 de Dezembro de 1937 -- 18 de Janeiro de 1984) foi um poeta e diseur de poesia português.
Foto de Sergey Ryzhkov
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Poesia Ary dos Santos
Sábado, Março 24, 2012
FADO SONETO

Cada manhã era a véspera da surpresa,
de silêncio em silêncio anunciada.
De encanto se tecia e de tristeza
essa noite cada vez mais desejada.
Do teu corpo prometido ainda o cheiro,
do teu ventre revelado ainda a chama.
A saudade do que foi um dia inteiro
na moldura do que foi a nossa cama.
Cada minuto um punhal impaciente,
cada gesto uma carícia antecipada,
cada suspiro um excesso de ar eloquente.
E a surpresa da surpresa desejada:
o sabor desse teu corpo adolescente
de mulher em cada beijo renovada.
FERNANDO TAVARES RODRIGUES
Professor universitário, sociólogo e escritor, Fernando Jácome de Castro Tavares Rodrigues (1954 - 2006) nasceu em Lisboa, no dia 7 de Março de 1954. Faleceu em Lisboa a 1 de Março de 2006.
Pintura de Iman Maleki
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Poesia Fernando Tavares Rodrigues
Segunda-feira, Março 12, 2012
POEMA DA CULPA

Eu a amei, e era de outro, que também a queria.
Perdoai a ela, Senhor, porque a culpa é minha.
Depois de haver beijado seus cabelos de trigo,
nada importa à culpa, pois não importa o castigo.
Foi um pecado desejá-la, Senhor, e, no entanto
meus lábios estão doces por esse amor amargo.
Ela foi como uma água calada que corria…
Se é culpa ter sede, toda a culpa é minha.
Perdoai a ela, Senhor, tu que destes a ela
sua frescura de chuva e esplendor de estrela.
Sua alma era transparente como um vaso vazio:
eu o enchi de amor. Todo o pecado é meu.
Mas, como não amá-la, se tu fizestes que fosse
pertubadora e fragante como a primavera?
Como não havê-la amado, se era como o orvalho
sobre a erva seca e ávida da estiagem?
Tratarei de rechaçá-la, Senhor, inutilmente,
como um sulco que tenta rechaçar a semente.
Era de outro. Era de outro que não a merecia,
e por isso, em seus braços, seguia sendo minha.
Era de outro, Senhor, mas há coisas sem dono:
as rosas e os rios, e o amor e o sonho.
E ela me deu seu amor como se dá uma rosa
como quem dá tudo, dando tão pouca coisa…
Uma embriaguês estranha nos venceu pouco a pouco:
ela não foi culpada, Senhor… nem eu tampouco
A culpa é toda tua, porque a fizestes bela
e me destes os olhos para mirá-la.
Sim. Nossa culpa é tua, se é uma culpa amar
e se é culpado o rio quando corre até o mar.
É tão bela, Senhor, e é tão suave, e tão clara,
que seria pecado maior se não a amasse.
E por isso, perdoa-me, Senhor, porque é tão bela,
que tu, que fizestes a água, e a flor, e a estrela,
tu, que ouves o lamento desta dor sem nome,
tu tambem a amarias, se pudesses ser homem.
JOSÉ ANGEL BUESA
in eupassarin
Foto de Juan Velasco
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Poesia José Angel Buesa
Quinta-feira, Março 08, 2012
POEMA MELANCÓLICO A NÃO SEI QUE MULHER

Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.
Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão...
MIGUEL TORGA
Pintura de Tamara Lempicka
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Poesia Miguel Torga
Segunda-feira, Março 05, 2012
A DIMENSÃO DO TEMPO

Porque não pára o tempo
quando estás ao meu lado?
É tão curto o tempo para te ouvir ...
Depois há os teus olhos
em que paro
nesta longa viagem ao interior da tua sedução
e de onde não me apetece partir...
Ah se eu pudesse suster os relógios
ficaríamos assim
de mãos dadas por toda a eternidade
um período demasiado exíguo
para a dimensão enorme do tempo deste amor.
FERNANDO PEIXOTO
Foto de Vyacheslav Sokhin
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Poesia Fernando Peixoto
Sábado, Março 03, 2012
AUTO-RETRATO

Eu sou … aquilo que sou – nem mais nem menos,
Alguém que vai vivendo ... bem e mal...
Um ser que vai soltando amargos trenos
Na ânsia de fugir a ser banal,
De não se definir nos epicenos
(Difusa luz que aspira a ser fanal!).
Alguém que o muito amar, letal veneno,
Tornou em triste vate do seu mal.
Deambulando oníricos roteiros,
Numa evasão aos rumos prisioneiros
Que a vida nos limita, coactiva,
Eu, que sou Eu, resista quem resista,
Quero manter o dom desta conquista
De ser quem sou, aonde quer que viva.
ANTÓNIO DE ALMEIDA
Pintura de William Bouguereau
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Poesia António de Almeida
Sexta-feira, Março 02, 2012
ROTAÇÃO

É nos teus olhos que o mundo inteiro cabe,
mesmo quando as suas voltas me levam para longe de ti;
e se outras voltas me fazem ver nos teus
os meus olhos, não é porque o mundo parou, mas
porque esse breve olhar nos fez imaginar que
só nós é que o fazemos andar.
NUNO JÚDICE
Foto de Сергей Михеев
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Poesia Nuno Júdice
Quinta-feira, Fevereiro 23, 2012
NÃO TE ENTENDO CORAÇÃO

Mas se não amo, nem posso,
Que pode então isto ser?
Coração, se já morreste,
Porque te sinto bater?
Ai, desconfio que vives
Sem tu nem eu o saber.
Porque a olho quando a vejo?
Porque a vejo sem a olhar?
Porque longe dos meus olhos
Me andam os seus a lembrar?
Porque levo tantas horas
Nela somente a pensar?
Porque tímido lhe falo,
E dantes não era assim?
Porque mal a voz lhe escuto
Não sei o que sinto em mim?
Porque nunca um não me acode
Em tudo que ela diz sim?
Porque estremeço contente
Quando ela me estende a mão,
E se aos outros faz o mesmo
Porque é que não gosto e não?
Deveras que não me entendo,
Nem te entendo, coração.
Ou me enganas, ou te engano;
Se isto amor não pode ser,
Não atino, não conheço
Que outro nome possa ter;
Ai, coração, que vivemos
Sem tu nem eu o saber.
JOÃO DE LEMOS
João de Lemos Seixas Castelo Branco, (Peso da Régua, 1819 — 1890), foi jornalista, poeta e dramaturgo.
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Quarta-feira, Fevereiro 22, 2012
EU ONTEM VI -TE ...

Eu ontem vi-te...
Andava a luz
do teu olhar,
que me seduz,
a divagar
em torno de mim.
E então pedi-te,
não que me olhasses,
mas que afastasses,
um poucochinho,
do meu caminho,
um tal fulgor.
De medo, amor,
que me cegasse,
me deslumbrasse
fulgor assim.
ÂNGELO DE LIMA
Poeta natural do Porto
1872-1921
Foto de Olga Filatoff
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Sábado, Fevereiro 18, 2012
FRÉMITO DO MEU CORPO A PROCURAR-TE

Frémito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,
Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!
E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que me não amas ...
E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas ...
FLORBELA ESPANCA
Foto de Sergey Ryzhkov
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Poesia Florbela Espanca
Domingo, Fevereiro 12, 2012
ETERNIDADE

Será a tua cama
a minha cama
aquela onde revolvo
um sono acidentado?
Onde dormes de lado
ou vigias
o modo alheio que a madrugada
abre
Será tua a proposta
deste encontro
ou será meu este amor
que arde?
Uma flor de fogo
que incendeia
a nossa cama antes do fim
da tarde
Se é tua a dúvida
e minha esta certeza
daquilo que despimos
e na cama tarda?
O vestido descendo pelas ancas
sendo
da sede o que segura
e na seda aguarda
Será tua a vitória
e minha esta derrota
de não poder segurar-te
a vida inteira?
Por mais que queira
a eternidade guarda
o tempo que por ela
já se esgueira
MARIA TERESA HORTA
Foto de Nataly Ugolnikova
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Quinta-feira, Fevereiro 09, 2012
LEMBRANÇA

Flor tão pura da madrugada,
Tive-a nas mãos!
Deixei-a ir
No vendaval…
Eu ia cego
Na ínvia estrada,
Envolto em sombras
E pesadelos…
Eu ia pálido
E já vencido.
Ela passou
E pôs as mãos
Na minha alma,
E descerrou
Ao meu olhar
- Ó luz tão bela -
O sol da vida.
Grácil flor
Nasceu um dia
Na minha estrada.
Cingi-a ao peito:
E as minhas chagas
Ela beijou!
Foi um instante.
Deixei-a ir…
E fiquei só.
LUIS AMARO
Foto de Ricardo Labastier
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Poesia Luis Amaro
Quinta-feira, Fevereiro 02, 2012
SONETO DE DEVOÇÃO

Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.
Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.
Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.
Essa mulher é um mundo! - uma cadela
Talvez... _ mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!
VINICIUS DE MORAES
Foto de Tani Shepitko
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Poesia Vinícius de Moraes
Domingo, Janeiro 29, 2012
DO DESENCONTRO

do desencontro
pela janela entreaberta
da infância
espio a vida
pelo lado de dentro
em busca dos sonhos
que não encontrei
nas noites que vivi
no lado de fora
ADEMIR ANTÓNIO BACCA
Foto da net
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Poesia Ademir Antonio Bacca
Quarta-feira, Janeiro 25, 2012
CONFIDÊNCIA

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça
Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno
Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci
Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos
No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome
MIA COUTO
Foto Luca Faz
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Poesia Mia Couto
Sábado, Janeiro 21, 2012
HORAS DE SAUDADE

Tudo vem me lembrar que tu fugiste,
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte
O teu perfume predileto exala
No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias.
E a valsa entreaberta mostra a frase
A doce frase qu'inda há pouco lias.
As horas passam longas, sonolentas...
Desce a tarde no carro vaporoso...
D'Ave-Maria o sino, que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.
E não vens te sentar perto, bem perto
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.
E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo n'alma,
Como a harpa de Davi teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.
É que tudo me lembra que fugiste.
Tudo que me rodeia de ti fala...
Como o cristal da essência do oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala.
No ramo curvo o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos...
Eras — ave do céu... minh'alma — o ninho!
Por onde trilhas — um perfume expande-se
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço...
E teu rastro de amor guarda minh'alma,
Estrela que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos!...
CASTRO ALVES
Foto de Sergey Kurochkin
Etiquetas:
Poesia Castro Alves
Quinta-feira, Janeiro 12, 2012
TENHO SAUDADES DO TEU CORPO

Tenho saudades do teu corpo: ouviste
correr-te toda a carne e toda a alma
o meu desejo – como um anjo triste
que enlaça nuvens pela noite calma?...
Anda a saudade do teu corpo (sentes?...)
Sempre comigo: deita-se ao meu lado,
dizendo e redizendo que não mentes
quando me escreves: «vem, meu todo amado...»
É o teu corpo em sombra esta saudade...
Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios-sombra:
a luz do seu olhar é escuridade...
Fecho os olhos ao sol para estar contigo.
É de noite este corpo que me assombra...
Vês?! A saudade é um escultor antigo!
ANTÓNIO PATRÍCIO
1878-1930
Escritor e diplomata português, natural do Porto. Frequentou a Escola Naval, acabando no entanto por se formar em Medicina, em 1908. Proclamada a República, foi cônsul na Corunha, em Cantão, Manaus, Bremen e outras cidades, vindo a falecer pouco depois de nomeado ministro de Portugal em Pequim.
Foto de Eduard Alt
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Poesia António Patrício
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